Casa Grecov
O terreno onde se implanta a casa situa-se junto a uma área de mata ciliar nativa sob proteção permanente. A presença da vegetação e a acentuada inclinação da topografia, descendente em direção à mata, constituem os principais condicionantes do projeto. A casa se acomoda ao terreno em dois níveis, tirando partido do desnível para organizar seus espaços e estabelecer diferentes formas de relação com a paisagem.
No térreo, os espaços de convívio social — cozinha, sala de estar e área de lazer — articulam-se diretamente com a praça, que se abre para a paisagem e estabelece a continuidade física e visual entre interior e exterior. Organizada em dois níveis, a praça prolonga, em sua cota inferior, o piso dos ambientes sociais e da área de lazer; 45 cm acima, uma segunda superfície se estende sobre os quartos do nível semienterrado. Essa configuração faz da praça o principal elemento de mediação entre os espaços internos da casa e a paisagem. Na porção voltada para a rua, localizam-se a garagem e a área de serviço, que estabelecem o contato funcional da casa com o espaço urbano. Na sala, o pé-direito duplo amplia a dimensão vertical do espaço, enquanto claraboias lineares, dispostas em duas extremidades da laje de cobertura, permitem a entrada de luz natural e reforçam a percepção de amplitude do ambiente.
Acompanhando o declive natural do terreno, o nível semienterrado situa-se 2,80 m abaixo do térreo e avança em direção ao limite posterior do lote, aproximando-se da mata. Nele estão dispostos os espaços de uso íntimo — quartos e escritório —, que encontram na posição rebaixada maior resguardo e uma relação mais próxima com a paisagem.
A construção combina dois sistemas estruturais, empregados de acordo com as diferentes exigências espaciais do projeto. O concreto armado moldado in loco é utilizado nas situações em que são necessários maiores vãos, enquanto o tijolo ecológico assume função estrutural nos trechos em que vãos menores são suficientes e, em outros, atua apenas como elemento de vedação. Seus dois furos longitudinais permitem a inserção de vergalhões de aço e o preenchimento com concreto, formando elementos estruturais verticais incorporados às próprias paredes — uma espécie de “pilares virtuais” — e integrando estrutura e vedação em um mesmo sistema construtivo.
A organização da casa responde, assim, simultaneamente à topografia, à necessidade de privacidade e à presença da mata. Enquanto garagem e área de serviço estabelecem a relação funcional com a rua, os espaços de caráter social e íntimo se resguardam do contato visual com ela e se orientam para a paisagem. Entre os ambientes sociais e a mata, a praça em dois níveis assume papel central nessa articulação, prolongando os espaços internos em direção ao exterior e construindo uma transição gradual entre arquitetura e paisagem. A topografia deixa, desse modo, de ser apenas uma condição do terreno para se tornar parte da própria estratégia do projeto.
Ficha-técnica
Projeto: 2022
Obra: 2023
Área: 220m²
Localização: Alphaville Brasília, Cidade Ocidental/GO
Autores: Eder Alencar e André Velloso
Colaboradores: Thais Lacerda e Gabriel Lordelo
Estagiários: Isabella Derenusson,Victor Itonaga, Mariana Castro e Luca Augusto.
Obra Civil: Tríade Engenharia
Marcenaria: Prática Marcenaria
Marmoraria: Área Pedras
Luminotécnico: Sulene Lighthing Design
Esquadrias: Estrutural Esquadrias
Vidraçaria: Vidromex
Ambientação: Primavera Casa
Paisagismo: Quinta Arquitetura
Fotografia: Joana França